sexta-feira, 11 de março de 2011

A Garota da Rua à Direita pt. 5

                                        por Lely Finnegan


                Certos dias eu convidava algumas amigas para minha casa e preparava um lanche apetitoso. Sentávamos inicialmente na sala, mas depois mudamos nossa pequena reunião para a varanda da frente, assim não precisaríamos encarar umas as outras.
                Éramos quatro, no colégio nos chamavam de quarteto incrível.
Katy a mais velha do grupo, tinha muita facilidade em lidar com as pessoas, foi oradora da turma e participou do grupo de teatro durante dois anos, hoje ela é relações publicas de uma importante multinacional.
Jenna era a menina mais bonita do colégio, participou de todos os concursos de beleza do colégio e ganhou todos eles, hoje ela toca bateria em uma banda feminina de punk rock e é colunista em uma revista renomada no mundo da música.
 Emily, por sua vez, era a mais rebelde do grupo, não tirava boas notas no colégio e nem se esforçava para assistir as aulas, vivia dormindo principalmente nas aulas de física, hoje ela continua sendo a mesma pessoa rebelde e extrovertida, mas conseguiu tirar proveito disso se tornando uma promotora de eventos e agente da banda (quase) famosa de Jenna.
Já eu, bem... No colégio me chamavam de nerd, pois sempre exigi muito de mim mesma e não aceitava uma nota baixa sequer, consegui ser a primeira da classe e uma ótima nota para a faculdade, mas como se pode notar, não cheguei tão longe quanto minhas amigas, hoje sou uma simples dona de casa com os sonhos frustrados por um casamento arranjado e um marido tirano.
Nós, apesar de tantas diferenças, sempre nos demos muito bem e nossos encontros em minha casa eram agradáveis o suficiente para que no fim da tarde já estivéssemos marcando outro dia conveniente para que todas comparecessem.
Existem coisas que não se devem ser ditas nem mesmo ao espelho, seguindo esta linha de raciocínio, nunca contei a elas sobre minha compulsão em sair de casa todas as tardes escondido de todos. Eu, sinceramente, não sabia como elas reagiriam se eu contasse a verdade. De fato elas sempre quiseram o melhor pra mim, mas a inveja é um sentimento traiçoeiro e nos pega pelo pé.
O quarteto incrível se reunia mais uma vez e abrimos nossas conversas com a grande notícia de que Katy estava grávida, foi uma surpresa e tanto. Bem, Katy não havia nos dito que estava namorando ou compromissada com alguém, então nossos olhos não saíram de cima dela naquele dia inteiro.
No fundo dos meus pensamentos eu dava graças a deus por não ser eu a grávida a se explicar, eu realmente não tinha vontade de ter um filho com Albert, ficava imaginando o quanto a pequena e indefesa criança iria sofrer com o pai gritando pela casa e a mãe se lamentando por ter uma vida infeliz.
Quando o relógio indicou 16 horas, todas nos levantamos em sincronia. Era hora de minhas adoráveis amigas partirem para suas próprias casas perto do centro grande e movimentado da cidade, muito diferente do meu humilde bairro fim-de-mundo.
Acompanhei-as até o portão da entrada e me despedi de cada uma com um abraço e um beijo no rosto, com exceção de Katy, que fiz questão de acariciar sua barriga me despedindo do “Noah” – como ela disse que se chamara caso fosse o menino que ela tanto queria – e assim as vi entrando em carros separados e já quando estavam virando a esquina corri para dentro.
Arrumei toda a bagunça num piscar de olhos e me troquei, eram 16h30min e já estava eu saindo novamente com um sorriso tímido no rosto por estar indo novamente ao lugar onde habitava a minha felicidade.
A porta vermelha estava de novo à minha frente e dessa vez ela parecia uma miragem, um oásis no meio de um deserto obscuro de mentiras e desilusões.
Passei por todo aquele corredor novamente, subi a escada me concentrando degrau por degrau para não fica tonta com as voltas q ela dava em si mesma. Finalmente cheguei ao meu destino e é assim que minha vida toda recomeça, entrando por aquela porta e me identificando com aquele lugar perfeito.
Só existe uma coisa que eu não citei: todas as horas que eu passava ali dentro, eu não passava sozinha e talvez seja isso que torne aquele lugar tão maravilhoso, pessoas que nunca iriam me julgar pelo que faço.
(continua)


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