quinta-feira, 14 de março de 2013

Desligue-se!


Somos todos parte de uma grande rede. Estamos interligados uns aos outros por fios e gigabytes, que substituíram o aperto de mão, o olho no olho e o calor humano. Nos tornamos escravos da praticidade, donos de uma nova língua, mestres de abreviações e doutores em diversos assuntos que nunca estudamos um período sequer. O "vc", o "td", o "ñ", o "rs" substituíram as horas intermináveis das aulas de português na escola. Os e-mails tornaram nossos dedos mais ágeis e nossas mãos mais atrofiadas. O botão de "like" entrou no lugar das linhas sobre nossas opiniões próprias e as fotografias passaram a ser pensadas unicamente para os perfis eletrônicos. Ganhamos novos endereços, onde o CEP virou o arroba. Conquistamos o direito de sermos quem quisermos, tendo quantos anos preferirmos e falarmos o que bem entendemos sobre aquilo que não entendemos.

Nostradamus deve ter citado algo sobre esse novo tempo, mas atualmente seu nome foi esquecido com os de outras personalidades para que pudéssemos abrir espaço no disco rígido da nossa cabeça, a ponto de preenchermo-nos com informações mais relevantes. Nos tornamos próximos de quem mora em outras cidades, outros países, mas vimos se abrir um abismo que nos distanciou de amigos que moram em bairros vizinhos ao nosso. E nem o celular mais ameniza essa distância criada entre nós. A popularização dos aparelhos celulares sofisticados transformou todos em meros androides. E hoje, todo mundo ama comprar esses sistemas pela diversificada funcionalidade que o mesmo propõe, tornando a função falar, o último requisito para adquirir a compra.

Nossos sentidos foram modificados e estamos passando por uma nova seleção natural. Já são poucos os que ainda sentem o cheiro de livros. Os links para downloads ataram nosso tato e as páginas, outrora de papel, foram transformadas em dados, e hoje brilham no monitor. As crianças preferem ter visão e audição voltadas para a tela. Não há mais amarelinha na rua, pique com a galera do bairro, bolinha de gude na areia da pracinha. Percebe-se que, além disso tudo, até a comida nossa de cada dia perdeu sua função e não pode mais ser digerida sem antes fotografada.

Nós não pagamos pela maioria dos serviços que utilizamos quando ficamos na frente de um computador, e há uma teoria que diz que quando não pagamos por tal serviço, nos tornamos o produto. Acreditando ou não, usufruímos de coisas que se tornaram uma necessidade a todos, mesmo não sendo tão necessárias assim. Criamos em nossa mente a necessidade de que devemos ter uma vida cibernética, eletrônica. E são poucos os que conseguem equilibrá-la com o que sobrou da vida real. Todavia, nós, os exilados desse futuro digno de filme do Spielberg, continuamos aqui: participando de tudo isso por medo de sermos aniquilados de rodas sociais e até de empregos. Continuamos no mesmo endereço, com o mesmo CEP, o mesmo número de telefone, esperando que alguém bata em nossa porta para uma visita. Quem sabe, trazendo até um livro. Seria uma boa experiência antes da extinção.


Um comentário:

Weslley Martinelle disse...

Outro texto ótimo! HUSAHUS Adorei! Em minha defesa: Ainda amo cheiro de livro e outra semana joguei bola de gude com meu irmão, meu primo e minha mãe.

Adorei mesmo :D